agosto 13, 2010

se eu fizesse? (I)

Descalça, calças arregaçadas, encharpe tapando sua camisa branca, mas protegendo seu corpo de uma aragem, pura e fria, ela caminha pela areia da praia, vazia, onde se pode sentir um maravilhoso salpicar, tocando em sua cara e dando o sabor de um mar bravio e salgado. Um cheiro a encanto, perfume maresía e ondas de uma espuma, que mais parece neve em derrocada, contrastando com o som de uma melodia, conjunta, de água e uma gaivota, de asas bem abertas, voando, planando, contra o soprar de um vento forte, que não impede sua mestria e atenção, na procura do alimento que o mar azul e quase transparente, lhe ofereçe. É um caminhar de pensamentos, onde a beleza, infinita, lhe dá a tranquilidade de, a cada passada, desenhar na areia, seus delicados pés que resumem um presente e um passado, que depressa se vai apagando engolido pelo mar, resultado de ondas, também elas, desfeitas.
Abraçada ao seu corpo e sentindo a sua leveza, que cresce consoante o seu querer, deixando seus cabelos esvoaçarem e seus olhos lacrimejarem, nada consegue sobrepor-se a este paraíso, vazio e tão cheio.
As suas passadas continuam e o observar ilustra-se. Sente que algo pisou, era uma pedra, apenas uma pedra, baixa-se e apanha-a. É branca, lisa, aveludada, sente o seu aroma, sua frescura e o seu silencio. Olha-a fixamente, fecha-a na sua mão e, respirando bem fundo, aconchega-a, apertando-a ao seu peito.
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11 comentários:

JB disse...

A tua prosa é deliciosa! Gostei imenso!

Posso dizer-te que estive nessa praia,de enxarpe, tapando a minha camisa branca. Saboreei cada conchinha do teu mar feito texto adjectivado por cada gota de sal, por cada perfume maresía... Senti esse voo de gaivota que quase toquei, passeei meus pensamentos pela areia (onde alguns ficaram guardados) e quem sabe se junto ao meu peito não estará já há algum tempo essa pedra branca, lisa que encerra os meus segredos...

Parabéns!!!

Beijinho

maria teresa disse...

Por essa praia já passeei, colhi pedras e conchinhas e a elas confiei os meus pensamentos. Estive sozinha sem me sentir só, em meu redor senti os meus sonhos soltarem-se na aragem que se fazia sentir...o vai e vem das ondas em espuma beijaram-me os pés e a orla da minha saia rodada...
Abracinho

OutrosEncantos disse...

... é que as pedras também falam...
... e os pensamentos respiram...
... e é tão sublime esse vazio tão cheio..., cheio de silencio..., silencio/melodia..., sinfonia perfeita... o marulhar das ondas no apagar das peugadas..., o cantar da gaivota na alegria da sua liberdade..., o silvo do vento no entregar dos segredos, dos recados... são momentos únicos esses em que as lágrimas são salgadas de prazer dos salpicos do mar, dos arrepios na pele pela brisa fresca, dos pés nus pisando... sentindo... conversando com as areias húmidas!
É como se o mundo estivesse inteiro alí, só para nós, cheio de paz, melodia e prazer!
É Sérgio, são momentos únicos.
Igualmente única foi a viagem que acabei de fazer contigo à beira do mar, meu eterno amante (o mar, é claro... risos)!
Não ligues, tenho esta mania de às vezes divagar...
Penso que estás a escrever um conto. É coisa que não consigo fazer, mas adoro ler. Adorei o tema. Ansiosamente aguardo os episódios seguintes. Até lá, um beijo! :))

Sonhadora disse...

Meu querido amigo
Maravilhoso sentir, pura poesia nas tuas palavras.

Beijinhos
Sonhadora

Canto da Boca disse...

Sergio, uma característica admirável de um escritor (de acordo comigo), é a capacidade que ele tem em nos levar para dentro da cena, deixamos de ser meros expectadores, e tornamo-nos atores da narrativa, e de certo modo, autores também, porque ficamos tão envolvidos que acabamos criando recortes dentro do texto principal. E é isso que fazes conosco seus leitores, dá-nos a possibilidade rica da interlocução, cada um participa com a devida carga afetiva, referências, experiencias...

Beijo e um lindo domingo!

Banalidades disse...

Aqui vim ter!
Adorei o seu texto, quer a prosa, quer a poesia!
A sua sensibilidade toca-nos, arrasta-nos, e sentimos, com intensidade a alma a pular dentro da gente!
Gostei muito. Até sempre!

sonho disse...

Quantas vezes as pedras...nos dizem mais...que certas pessoas...
Beijo d'anjo

Banalidades disse...

Grata pela visita! Grata pelas palavras cheias de um suave alento. Grata pela atenção prestada. Grata por textos tão ricos que, que sem demora, mas com uma inspiração de sempre lá me deixou. Gostei muito; sensibilizou-me bastante. Até sempre!

GarçaReal disse...

Que delicia de texto...

Que mulher não deseja caminhar assim ao longo da praia sentindo o areal a afagar-lhe os pés, o ar de maresia a tocar-lhe o rosto e as ondas a darem o som de um canto belo?

Que lindo...

Escreves beleza querido amigo, pois tens sensibilidade de alma.

Que o dia seja de luz para ti

bjgrande do lago com imensa amizade

Fa menor disse...

Consegui absorver todas as imagens que passaste.

Gostei de te ler aqui!

Bjinhs

JPD disse...

Quem assim passeia à beira mar estará num sublime estado de benquerença.

Estou certo disso.

O mar apaziguador, a maioria dos objectos exuberantes na sua convexidade, a jovem, abraçada a si na ternura da sua encharpe, a sublimar um envolvimento muito mais exaltante e, até que se adivinha, a gaivota -- Apesar de bem esticada -- desenhará voos circulares.

Acho esta narrativa equilibrada e coerente sucinta.

Terá continuação e, mal podendo esperar, vou já de seguida para a parte II.

Belo texto.

Um abraço Sérgio.